Os números de julho colocam a indústria automotiva brasileira diante de duas trajetórias que precisam ser observadas em conjunto. De um lado, produção e emplacamentos avançam e o Brasil aparece entre os países que registram crescimento na fabricação de veículos em 2026. De outro, as exportações permanecem abaixo do resultado do ano passado enquanto as importações ampliam sua presença no mercado interno. É nessa combinação de movimentos que encontro um dos principais pontos para analisar o desempenho do setor neste ano.
Quando observo o balanço divulgado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), entendo que julho acrescenta novos elementos a essa análise. O mercado absorveu 279,5 mil autoveículos no mês, maior volume de 2026, levando o acumulado de janeiro a julho a 1,7 milhão de unidades, crescimento de 17,9% sobre igual período de 2025. Ao mesmo tempo, a produção chegou a 253,9 mil unidades em julho e a 1,626 milhão no acumulado, avanço de 8,3%.
Outro movimento está na eletrificação. Híbridos e elétricos alcançaram 23,5% dos emplacamentos de veículos leves em julho. Entre janeiro e julho, foram 308 mil unidades eletrificadas, crescimento de 120,8% na comparação anual. Desse total, 186 mil foram importadas, enquanto 121 mil correspondem à fabricação nacional e à montagem CKD/SKD. Os elétricos puros chegaram a 25,8 mil emplacamentos somente em julho.
Essa transformação também aparece nos números das importações. O Brasil recebeu 344,1 mil autoveículos importados nos sete primeiros meses, aumento de 25,7% sobre as 273,7 mil unidades registradas no mesmo intervalo de 2025. A composição desses volumes também mudou: as importações de eletrificados passaram de 104,5 mil para 186,5 mil unidades, alta de 78,4%, enquanto as de veículos a combustão recuaram 6,8%.
No sentido contrário da balança, julho apresentou uma recuperação mensal das exportações, com 39,3 mil unidades embarcadas, 6,8% acima de junho. O resultado, entretanto, não reverteu a queda acumulada. Entre janeiro e julho foram exportados 255,9 mil autoveículos, redução de 20,8% diante das 323 mil unidades do mesmo período de 2025. A retração dos embarques, combinada ao crescimento das importações, amplia a necessidade de discutir como a produção instalada no Brasil pode acessar outros mercados.
É nesse ponto que considero o comércio exterior parte da estratégia industrial. O desenvolvimento de mercados, a gestão dos regimes aduaneiros e tributários e a estruturação dos processos de exportação podem contribuir para reduzir custos e criar condições para ampliar os embarques. O Grupo Becomex atua no setor automotivo com soluções em Regimes Especiais, Global Trade, Gestão de Riscos e Tributário Estratégico, incluindo instrumentos relacionados diretamente às operações internacionais, como Drawback, Reintegra, RECOF/RECOF-SPED, gestão de exportação indireta, acordos internacionais e certificados de origem.
A contribuição passa também pela integração dessas ferramentas à cadeia produtiva. O Grupo Becomex trabalha com montadoras e fornecedores na eficiência econômica das operações, no aproveitamento de créditos tributários e na gestão do fluxo de caixa. No segmento automotivo, 89% das montadoras associadas à Anfavea e mais de 250 fornecedores são clientes do Grupo, enquanto empresas atendidas pela Becomex representam 65% do comércio exterior automotivo. Esses dados indicam uma base de atuação que permite tratar exportação, tributação, processos aduaneiros e cadeia de fornecimento dentro de uma mesma estratégia.
Os veículos pesados completam esse cenário com comportamentos diferentes. Os caminhões registraram 11,7 mil emplacamentos em julho, alta de 19,4% sobre junho e de 10% sobre julho de 2025. O acumulado de 60,6 mil unidades, porém, ainda representa retração de 7,2%. Nos ônibus, foram 12,5 mil unidades entre janeiro e julho, redução de 10,7%.
Ao reunir esses indicadores, observo uma indústria que aumenta produção e vendas enquanto passa por mudanças na composição do mercado e enfrenta redução de sua presença externa. O desempenho dos próximos meses dependerá não apenas da evolução dos emplacamentos, mas também da capacidade de transformar produção, eficiência tributária e comércio exterior em uma estratégia integrada. Para uma indústria inserida em cadeias internacionais, produzir mais é uma parte da equação; ampliar as condições para competir e exportar é outra.
Marcos Gonzalez – diretor do segmento automotivo do Grupo Becomex


