A IA industrial foi o tema central da Missão NEXUS AI que levou uma delegação brasileira à Alemanha e à Suíça para conhecer iniciativas de manufatura avançada, gêmeos digitais e inovação aplicada à indústria. Tive a oportunidade de fazer parte dessa delegação.
O objetivo era simples de enunciar e difícil de praticar: ir até onde a próxima onda da indústria está sendo desenhada e voltar com algo concretamente aplicável aqui. Levei comigo a perspectiva de quem trabalha há tempo dentro da indústria brasileira, com clientes que produzem todos os dias, e com a curiosidade de entender qual é, hoje, o estado real da arte em inteligência artificial industrial e manufatura avançada na Europa.
Foram dez dias visitando institutos de pesquisa, governos, universidades e empresas. Voltei com o notebook cheio e uma visão mais nítida de três coisas: para onde a Europa está convergindo, o que o Brasil já tem para oferecer e onde uma empresa como a Becomex pode somar.
A Europa está apostando em IA confiável, soberana e aplicada à indústria
Se existe uma mensagem comum entre Alemanha e Suíça, ela é clara: a inteligência artificial deixou de ser apenas uma pauta tecnológica e passou a ser uma questão de competitividade industrial.
Em diferentes instituições, ouvimos variações da mesma estratégia. A aposta europeia está concentrada em IA confiável, explicável, certificável e alinhada a ambientes regulados.
No Forum Digital Technologies, em Berlim, o foco estava em programas voltados a computação quântica, Green Tech e IA generativa para pequenas e médias empresas. No DFKI, centro de pesquisa em inteligência artificial da Alemanha, vimos iniciativas ligadas à IA híbrida para descoberta de medicamentos, gêmeos digitais para mobilidade autônoma, agricultura baseada em sensoriamento remoto e sistemas de produção modular.
Também chamou atenção a agenda de Trusted AI, alinhada ao EU AI Act, e a preocupação recorrente com certificação, transparência e rastreabilidade dos modelos.
Ao longo da missão, ficou evidente que a Europa busca construir uma alternativa própria ao domínio tecnológico americano e chinês. O debate sobre soberania digital apareceu de forma consistente em praticamente todas as conversas.
O futuro da manufatura passa por gêmeos digitais, automação e sistemas inteligentes
Outro ponto de convergência foi a aplicação prática da IA dentro dos ambientes produtivos.
Vimos gêmeos digitais sendo utilizados para simulação industrial, planejamento operacional e treinamento de sistemas autônomos. Em diferentes iniciativas, a lógica era semelhante: criar representações digitais confiáveis dos processos para testar cenários, reduzir riscos e acelerar decisões.
Também observamos avanços importantes em robótica colaborativa, manufatura modular e integração entre sistemas físicos e digitais.
Mais do que demonstrações futuristas, o que chamou atenção foi o pragmatismo. A maior parte dos projetos estava direcionada a resolver problemas concretos de produtividade, qualidade, manutenção e eficiência operacional.
Essa percepção ficou ainda mais evidente durante a Hannover Messe.
Embora os humanoides tenham atraído boa parte da atenção dos visitantes, os avanços mais relevantes estavam em IA industrial, robótica colaborativa, gêmeos digitais e Digital Product Passport. Tecnologias que já começam a gerar valor em escala e que podem ser absorvidas pela indústria brasileira.
A corrida não é apenas por modelos de IA, mas por aplicações
Um dos principais aprendizados da viagem foi perceber que a discussão mais madura sobre inteligência artificial não gira em torno de quem possui o maior modelo.
Ela gira em torno de quem consegue resolver problemas reais.
Ao longo das visitas, vimos aplicações em serviços públicos, saúde, agricultura, manufatura, manutenção industrial e automação de processos.
Em Munique, por exemplo, uma administração pública desenvolveu seu próprio ambiente de IA baseado em tecnologias abertas para milhares de usuários. Na Suíça, observamos aplicações que automatizam processos industriais, geração de documentação técnica e manutenção de equipamentos.
Em todos os casos, a lógica era a mesma: menos foco na tecnologia pela tecnologia e mais foco em resultados operacionais.
Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos para o Brasil.
Não seremos a casa do próximo GPT. Mas podemos ser um dos lugares onde a inteligência artificial gera impacto real dentro da operação industrial.
Soberania digital não é apenas uma discussão teórica
Outro tema recorrente foi a busca por maior autonomia tecnológica.
Projetos como o MUC GPT, na Alemanha, o APERTUS e iniciativas suíças de IA aberta mostram que governos, universidades e empresas passaram a tratar a dependência tecnológica como um tema estratégico.
Uma das frases mais repetidas ao longo da missão fazia referência direta ao contexto geopolítico atual.
A preocupação não está apenas na capacidade de utilizar inteligência artificial, mas também em compreender quem controla a infraestrutura, os modelos e os dados.
Essa discussão tende a ganhar cada vez mais relevância para empresas industriais que operam em ambientes regulados e com informações sensíveis.
O que isso significa para a indústria brasileira
Volto convencido de que existe um vetor claro de oportunidade para o Grupo Becomex e para os clientes industriais que servimos.
A Europa está produzindo, em alta intensidade, soluções aplicadas de IA industrial, gêmeos digitais, cobótica, manufatura aditiva e sovereign AI, e está disposta a transferir tecnologia para mercados que tenham caso de uso, escala e parceiros confiáveis.
O Brasil tem essa demanda e está sendo observado com atenção.
Ao longo da missão, ficou claro que existe interesse em desenvolver projetos conjuntos, ampliar parcerias e aproximar ambientes de inovação europeus da realidade industrial brasileira.
Para nós, do Grupo Becomex, fica uma agenda concreta: identificar parceiros estratégicos, aproximar tecnologias maduras das necessidades dos nossos clientes e posicionar a indústria brasileira como um ambiente capaz de acelerar a aplicação prática dessas soluções.
A porta da inovação continua aberta.
A diferença é que, agora, está mais claro para onde ela leva.
Mathias Inngauer – Chief AI Officer do Grupo Becomex


